O que são as 'Notas da Comunidade' que a Meta quer implementar na América Latina?
O grupo Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) anunciou, nesta quarta-feira (9), que começará a testar as chamadas "Notas da Comunidade" em 16 países da América Latina, sistema já implementado nos Estados Unidos para substituir seu programa de checagem de fatos.
A medida representa mais um passo para abandonar a checagem realizada por veículos de comunicação parceiros e substituí-la por um sistema de moderação baseado nos próprios usuários.
- Como funcionam as notas de contexto? -
As notas de contexto são uma ferramenta de moderação coletiva de conteúdos e aparecem abaixo de determinadas publicações potencialmente enganosas.
O Twitter lançou essas notas em 2021 e posteriormente ampliou seu uso na rede social, adquirida em 2022 por Elon Musk e atualmente chamada X.
Em janeiro de 2025, a Meta anunciou que encerraria nos Estados Unidos seu programa de checagem de fatos, poucos dias antes da posse de Donald Trump, e que o substituiria pelas notas.
Elas são escritas por usuários voluntários, que precisam se cadastrar previamente, com o objetivo de "informar melhor caso uma publicação seja potencialmente enganosa ou pouco clara", segundo o site da Meta.
Uma "Nota da Comunidade" pode aparecer em uma publicação "se um número suficiente de colaboradores a considerar útil". Dessa forma, "qualquer pessoa pode solicitar uma Nota da Comunidade sobre uma publicação que vir no Facebook, Instagram ou Threads e que possa se beneficiar de mais contexto".
Por enquanto, essas notas só podem aparecer em conteúdos acessíveis online nos Estados Unidos.
Para se tornar colaborador, é necessário ter pelo menos 18 anos, uma conta no Facebook, Instagram ou Threads criada há pelo menos seis meses e não ter infringido reiteradamente as regras da Meta.
- Quais são os riscos? -
O Facebook mantém um programa de checagem de fatos em mais de 26 idiomas e remunera mais de 80 veículos de comunicação em todo o mundo, entre eles a AFP, para utilizar suas checagens em suas plataformas, como Facebook, WhatsApp e Instagram.
Com as notas, "o problema é fazer com que a checagem dependa da multidão", afirmou Christine Balagué, fundadora da rede de pesquisa "Good in Tech", que estuda a desinformação.
"A multidão pode dizer algo correto, mas também pode haver pessoas mal-intencionadas que estejam ali para difundir e propagar desinformação", explicou.
O Conselho de Supervisão criado pela Meta, controladora do Facebook, para analisar suas decisões de moderação advertiu em março que, se o sistema fosse implementado em escala mundial, "poderia (...) representar riscos consideráveis para os direitos humanos e causar danos concretos".
A preocupação é especialmente relevante em "regimes repressivos em matéria de direitos humanos, particularmente no contexto de eleições e situações de crise e conflito", acrescentou o conselho.
- As notas são eficazes contra a desinformação? -
As notas, elaboradas e aprovadas por usuários das redes sociais, costumam recorrer ao jornalismo independente para fundamentar as informações apresentadas.
Isso, porém, pode ser difícil ou até impossível em regimes repressivos, segundo o Conselho de Supervisão criado pela Meta.
Em algumas regiões do mundo, "atores mal-intencionados demonstraram repetidamente sua capacidade de coordenar um grande número de contas com o objetivo de disseminar informações enganosas" e poderiam tentar manipular as "Notas da Comunidade" da Meta, alertou o conselho.
"Esse risco aumentará à medida que a inteligência artificial facilitar a criação e a operação em larga escala dessas redes", acrescentou.
A redução dos esforços das plataformas digitais para combater a desinformação representa um risco adicional para a integridade dos processos democráticos e para a confiança dos cidadãos, advertiu em março a Rede Europeia de Padrões de Checagem de Fatos (EFCSN, na sigla em inglês), da qual a AFP é integrante.
A.Foglio--INP