Irã pede que EUA 'meça palavras', no começo de negociações
O Irã aconselhou neste domingo os Estados Unidos a "medir suas palavras", após uma ameaça do presidente Donald Trump, uma amostra da tensão em torno do começo das negociações que buscam concluir na Suíça um memorando de entendimento para encerrar a guerra no Oriente Médio.
Pouco antes, o presidente americano havia pedido que Teerã impedisse que seus aliados no Líbano causassem "problemas", e ameaçado retomar os ataques contra o Irã.
A primeira cláusula do protocolo de acordo assinado na semana passada pelos presidentes de Estados Unidos e Irã estabelece que os dois países se comprometem "a se abster de ameaças ou do uso da força entre si".
A troca de advertências ocorreu logo após o início das negociações entre representantes americanos e iranianos em um hotel nos Alpes suíços, na presença de medidadores do Catar e do Paquistão. A delegação dos Estados Unidos é liderada pelo vice-presidente do país, JD Vance, e a iraniana, pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf.
Os participantes esperam que as discussões levem, em um prazo prorrogável de 60 dias, a um acordo final que encerre a guerra no Oriente Médio, uma hostilidade que já deixou milhares de mortos e afetou a economia mundial.
O vice-presidente americano descreveu o encontro como histórico e expressou esperança de "virar a página e transformar" a relação de seu país com o povo iraniano.
- Sem foto -
Segundo a TV estatal iraniana Irib, o programa nuclear iraniano não foi incluído na primeira sessão de conversas, e a delegação do Irã não quis posar para uma foto ao lado dos representantes de Washington.
As negociações começaram em meio a confrontos no Líbano entre Israel e o movimento islamita pró-Irã Hezbollah, apesar de o memorando de entendimento prever o fim das hostilidades em todas as frentes. Em retaliação, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz.
Trinta pessoas morreram ontem no leste e no sul do território libanês. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, advertiu que não será possível selar nenhum acordo com Washington se as hostilidades não cessarem no Líbano.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reiterou neste domingo que seu exército permanecerá no sul do Líbano pelo "tempo que for necessário", enquanto o chefe do Hezbollah, Naim Qasem, rejeitou a criação de uma zona de segurança israelense no sul libanês.
Mais otimista, o vice-presidente americano disse hoje que havia observado "progressos consideráveis" nos últimos dias "para garantir que o cessar-fogo seja mantido no Líbano".
Segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde libanês, as operações israelenses mataram 4.106 pessoas desde 2 de março. No mesmo período, o Exército israelense reportou a morte de 36 militares.
- Fechamento de Ormuz -
As discussões devem durar "alguns dias", disse ontem JD Vance, acrescentando que só poderia ficar na Suíça por "um ou dois dias". Se os líderes iranianos "estiverem dispostos a renunciar ao seu papel de fator de instabilidade regional, se estiverem dispostos a abandonar de forma duradoura qualquer ambição de possuir uma arma nuclear, os Estados Unidos estão dispostos a transformar fundamentalmente sua relação" com o Irã, afirmou.
Já o presidente iraniano reiterou que Teerã está disposta a dar garantias de que não fabricará armas nucleares, embora tenha insistido em que não renunciará ao seu direito de enriquecer urânio.
Após os confrontos de ontem no Líbano, o comando central do Exército iraniano anunciou que o Estreito de Ormuz seria fechado ao tráfego marítimo em resposta à "violação dos compromissos por parte do inimigo". A reabertura do Estreito é um dos pontos‑chave do protocolo de acordo entre os Estados Unidos e o Irã.
O Irã havia bloqueado no início da guerra essa via marítima estratégica, por onde costumavam transitar cerca de 20% dos hidrocarbonetos mundiais, o que provocou um aumento dos preços do petróleo.
Após o anúncio do Irã sobre seu novo fechamento, o comando americano para o Oriente Médio (Centcom) indicou que suas forças permaneciam "vigilantes". Segundo o Centcom, 55 navios mercantes cruzaram ontem o Estreito em segurança.
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F.dAangelo--INP